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Resumo A crescente progressão da AIDS entre a população feminina no Brasil, no final da década de oitenta, veio agravar de modo significativo uma situação de saúde já bastante precária. Por outro lado, o fato da epidemia atingir preferencialmente mulheres jovens, aliado à importância que a transmissão sexual do vírus tem na dinâmica de sua disseminação entre a população feminina, traz consigo várias consequências para o exercício da sexualidade e da reprodução e, consequentemente, produz uma série de desafios e desdobramentos para a área da saúde reprodutiva/sexual. A expansão da transmissão vertical do vírus, por exemplo, além de suscitar diversas discussões e confrontos de natureza política e ética, entre os quais o direito à maternidade da mãe soropositiva, a ilegalidade do aborto, a testagem de rotina/compulsória no pré-natal, impõe para o seu enfrentamento uma rearticulação e uma adequação dos serviços de assistência pré-natal e ao parto. Essas mudanças, que esbarram na precariedade do sistema de saúde, são ainda fundamentais para promover a redução da transmissão vertical através da implementação de estratégias de redução do risco, tais como o uso de AZT durante a gestação e o parto, o uso de cesárea, a lavagem do canal do parto. Caminhando no sentido contrário, a vinculação entre reprodução, sexualidade e AIDS traz dois desafios opostos. Por um lado, se impõe a necessidade de desenvolver tecnologias que permitam a concepção livre do risco de transmissão do vírus, já que, até o momento, todos os métodos que diminuem esse risco, com exceção da mútua monogamia, impedem também a gravidez. Nesse sentido, busca-se a desvinculação da prevenção da gravidez e das DSTs/AIDS. Por outro, é igualmente urgente que sejam desenvolvidas tecnologias contraceptivas eficazes que ao mesmo tempo auxiliem a prevenção das DSTs/AIDS, uma vez que, por essa ótica, cada vez mais será difícil pensar em prevenção de gravidez totalmente desvinculada da prevenção das DSTs/AIDS. Além disso, a nova realidade vem questionando a concepção verticalizada de programas de planejamento familiar, assim como o privilegiamento adotado por esses programas de métodos, em função apenas de sua alta eficácia contraceptiva. Ao desestimularem o uso de contraceptivos que interferem na relação sexual mas que, ao mesmo tempo, promovem a negociação sexual e a divisão da responsabilidade pelo evitar filhos entre os parceiros sexuais, como é o caso dos métodos de barreira, esses programas acabaram por introduzir uma cultura contraceptiva, que se mostra hoje extremamente perversa do ponto de vista das mudanças de comportamento sexual exigidas pela epidemia de AIDS. A emergência da epidemia do HIV/AIDS remete portanto para a necessidade de repensar os programas verticalizados, quer sejam relacionados ao planejamento familiar, à prevenção do câncer cérvico-uterino e das DSTs/AIDS ou, ainda, ao pré-natal. Ela exige uma efetiva integração dessas atividades que tenha como concepção básica a preservação da saúde e dos direitos sexuais. AIDS e saúde reprodutiva: Velhas e novas questöes Regina Maria Barbosa A crescente progressão da AIDS entre a população feminina no Brasil, no final da década de oitenta, veio agravar de modo significativo uma situação de saúde já bastante precária, especialmente quando se consideram aspectos relacionados ao exercício da sexualidade e da reprodução. Em um quadro relativamente caótico, onde o aumento do uso de contraceptivos convive com o recurso indiscriminado à esterilização cirúrgica e ao parto cesáreo, com a prática clandestina do aborto e os elevados índices de mortalidade materna, a epidemia da AIDS vem acrescentar novos desafios e reavivar antigos problemas de saúde. Assim, o que se configura para as mulheres brasileiras nos anos noventa é uma situação ainda mais complexa e preocupante, que manterá este segmento populacional em uma situação de extrema vulnerabilidade, se tais questões não forem enfrentadas com a seriedade e urgência devidas. A idéia desse trabalho é portanto refletir acerca de alguns aspectos que se situam na interface da AIDS com a saúde reprodutiva, tentando apontar alguns impasses colocados. O perfil da epidemia entre as mulheres. Um primeiro dado geral que informa sobre a progressão da epidemia entre as mulheres é a razão homem/mulher, que para o Brasil, como um todo, mudou drasticamente nos últimos anos, passando de 30/1 em 1985, para 4/1 em 1992 (PN-DST/AIDS 1994). Assim sendo, dos 55.894 casos de AIDS notificados ao sistema de vigilância da epidemia do Ministério da Saúde, até agosto de 1994, 8949 correspondem a casos femininos. Entretanto, para se visualizar a magnitude e a gravidade da epidemia, é fundamental não perder de vista que o número de pessoas atualmente infectadas é muitas vezes maior do que aquele apresentado pelos boletins epidemiológicos. Na verdade, os casos notificados fornecem um retrato que tem por referência um momento anterior, acontecido há até 12 anos atrás, quando ocorreu a infecção. Assim sendo, segundo Schechter (1994), uma em cada 100 mulheres estaria infectada pelo vírus da AIDS atualmente no Rio de Janeiro. Usando o software Epimodel, desenvolvido pelo Programa Global de AIDS da OMS , estima-se que, em 1994, existam no Brasil aproximadamente 500.000 pessoas infectadas com mais de 15 anos, sendo 73.000 mulheres, ou seja, uma mulher infectada para cada 667 habitantes do sexo feminino. Quanto ao perfil da epidemia, a análise de sua curvas de crescimento mostra que a transmissão heterossexual do HIV vem assumindo, ao longo do tempo, importância cada vez maior entre as mulheres, enquanto a transmissão através do uso de drogas injetáveis vem proporcionalmente decrescendo de importância (Gráfico 1). Em 1993, a transmissão sexual foi responsável por 53,5% dos casos femininos notificados. Entre a população masculina, a transmissão através do uso de drogas injetáveis, ao lado, da heterossexual, são as vias que vêm assumindo importância crescente na dinâmica da epidemia. Elas foram responsáveis, respectivamente, por 22% e 17,4% dos casos nesse mesmo ano. Esse paralelismo nas curvas de crescimento indica que o aumento dos casos entre as mulheres está correlacionado à expansão, que se verifica entre os homens, dos casos ocorridos através da transmissão heterossexual e do uso de drogas endovenosas. Esta correlação é também demonstrada em análise recente realizada para o estado de São Paulo. Focalizando apenas a transmissão sexual, Santos (1994) demonstra que, entre 1983 e 1992, 35% dos casos femininos de AIDS notificados neste estado, tiveram, como parceiros, usuários de drogas; 9,4%, homens com múltiplas parceiras; 15,4%, homens HIV+. Apenas 7% das mulheres indicaram como parceiros, bissexuais e a múltipla parceria feminina foi responsável por 14,4% dos casos notificados, indicando que a maioria das mulheres está se infectando através de parceiros que, por sua vez, se infectaram através de outras relações heterossexuais e/ou do uso de drogas injetáveis. De fato, esse estudo esclarece ainda que 45% das mulheres com AIDS, em São Paulo, têm parceiros fixos e únicos, o que coloca alguns desafios em termos das estratégias de prevenção. em maiores de 15 anos. Brasil, 1987-1992 ![]() ![]() Paralelamente, é possivel verificar também uma tendência crescente do número de casos de AIDS entre as mulheres com 1o grau incompleto ou analfabetas: em 1985 representavam 31% dos casos e em 1992, 67% (PN-DST/AIDS 1994b). Do ponto de vista das categorias profissionais, parecem ser as donas de casa as mulheres mais atingidas. Esta categoria, destituída de porta-voz e que provavelmente reúne um grande contingente de subempregadas, está relacionada a 75% da mortalidade feminina por AIDS, no município de São Paulo, entre 1991 e 1993 (CUT/INST 1994). No Rio de Janeiro, essa tendência se mantém, sendo as donas de casa e as empregadas domésticas as categorias de maior peso nesse estado (Matida 1994). Não foram publicados dados a esse respeito para o Brasil. Em termos de distribuição etária, os casos notificados de AIDS se concentram, nos dois sexos, nas faixas de 20 a 39 anos, sendo que no município de São Paulo a AIDS já é a principal causa de morte entre mulheres de 20 a 34 anos e a segunda, entre os homens de 25 a 40 anos (CUT/INST 1994). Assim sendo, longe de ser uma doença de "prostitutas e mulheres promíscuas", a AIDS se configura atualmente como um problema da população feminina jovem em geral, e particularmente daquela com menor poder aquisitivo e menos acesso às informações e serviços em geral. Saúde reprodutiva, sexualidade e AIDS O fato da epidemia de AIDS atingir preferencialmente mulheres jovens, aliado à importância que a transmissão sexual do vírus tem na dinâmica de sua disseminação entre a população feminina, produz uma série de desafios e desdobramentos para a área da saúde reprodutiva/sexual e reaviva outros, que foram pouco enfrentados. A prevenção e o tratamento precoce das DSTs é, certamente, um deles. A desatenção e o viés discriminatório e preconceituoso com que essa questão foi tradicionalmente tratada, se reflete tanto na percepção que os profissionais e a clientela dos serviços de saúde têm a seu respeito, como tem impedido que os poucos serviços capacitados para o seu atendimento sejam procurados pela população em geral. Essa desatenção se reflete ainda na inexistência de um sistema de controle das DSTs, e consequentemente de estatísticas nacionais a esse respeito, o que, entre outras coisas, tem dificultado a compreensão de sua relação com a AIDS no Brasil. É consenso, no entanto, que a sua ocorrência aumenta tanto a vulnerabilidade para adquirir o vírus quanto a possibilidade de transmiti-lo, sendo capaz de reduzir a zero a tão enfatizada diferença na eficácia de transmissão entre os dois sexos. A alta prevalência de DSTs nos países africanos tem sido apontada como um dos fatores responsáveis pela razão homem/mulher igual a 1, se tornando fundamental portanto que esforços sejam concentrados neste campo, tanto a nível de pesquisas, como de projetos de intervenção. A crescente expansão da transmissão vertical é sem dúvida outro desses desdobramentos, já que a maioria das mulheres atingidas se concentram nas faixas etárias correspondentes ao período reprodutivo. É possível observar, por exemplo, que o crescimento da transmissão perinatal acompanha a expansão da epidemia entre as mulheres (Gráfico 2), sendo que essa forma de infecção foi responsável, em 1992, por 86,5% dos casos notificados em menores de 15 anos. em mulheres e por transmissão perinatal. Brasil, 1985-1992 ![]() A possibilidade da transmissão mãe-filho do vírus, além de suscitar diversas discussões e confrontos de natureza política e ética, entre os quais o direito à maternidade da mãe soropositiva, a ilegalidade do aborto, a testagem de rotina/compulsória no pré-natal, impõe, para seu enfrentamento, novos desafios a nível da assistência pré-natal e ao parto. Assim, os primeiros resultados, originados pelo sistema de vigilância sentinela do HIV, divulgados pelo Programa Nacional de DSTs/AIDS, apontam para taxas de prevalência da infecção menores que 1% na maior parte das clínicas de pré-natal e maternidades cobertas por este sistema. Esses dados são coincidentes com outros dois estudos, que encontraram uma prevalência do HIV em mulheres grávidas de 0,8%, no Rio de Janeiro, e de 0,2%, em Brasília (Schechter 1994, PN-DST/AIDS 1994b). Desta forma, considerando, por exemplo, segundo Schechter, que são realizados no Rio cerca de 100.000 partos anualmente, estima-se em 800 o número de mulheres grávidas infectadas pelo vírus nesta cidade, o que, por sua vez implica na probabilidade de nascimento de 103 a 300 crianças também infectadas, que o sistema de saúde teria igualmente que absorver em 1994. Por outro lado, a redução da transmissão vertical através da implementação de estratégias de redução do risco, tais como o uso de AZT durante a gestação e o parto, o uso de cesárea, a lavagem do canal do parto, esbarra em alguns impasses. O primeiro se refere à própria capacidade de sua incorporação pelos serviços de saúde, cronicamente deficitários. O segundo diz respeito a dificuldades na própria identificação de gestantes soropositivas, já que a testagem de rotina, em virtude de seu alto custo, só está indicada quando a prevalência é no mínimo superior a 1% e, por outro lado, a utilização prévia de critérios de risco não tem se mostrado tão eficaz no rastreamento dos casos. Em terceiro lugar, a própria idéia de uma testagem de rotina tem sido contestada, por se confundir, na maioria das vezes, com testagem compulsória e também pelas consequências indesejáveis que um resultado positivo poderia acarretar. Teme-se, por exemplo, que essas gestantes sejam pressionadas a realizar um aborto ou sejam compulsoriamente esterilizadas durante o parto, práticas que têm sido cada vez mais denunciadas. Caminhando no sentido contrário, a vinculação entre reprodução, sexualidade e AIDS traz também a necessidade de se pensar estratégias que permitam a concepção livre do risco de transmissão do vírus, já que, até o momento, todos os métodos que diminuem esse risco, com exceção da mútua monogamia, impedem também a gravidez. Esse talvez seja o desafio mais inusitado da interface entre saúde reprodutiva e AIDS, na medida que o desenvolvimento de uma tecnologia que viabilize uma concepção livre de DSTs/AIDS vai na contramão da história do desenvolvimento das tecnologias contraceptivas. Além disso, exige que a própria idéia de um serviço ou atividade de planejamento familiar seja repensada, no sentido de incorporar essa nova demanda que começa a surgir. E, dado que a disponibilidade no mercado de um virucida não espermicida não se configura a curto prazo, estratégias alternativas para lidar com essa realidade deverão ser pensadas. Perguntas como "O que eu devo fazer quando eu quiser engravidar?" "Se o teste fôr negativo, eu posso engravidar sem risco?", já constituem uma demanda por informação nos serviços de saúde e não poderão ficar sem resposta. Na verdade, os questionamentos trazidos pela epidemia de AIDS colocam em xeque toda a concepção de planejamento familiar enquanto um programa verticalizado, que privilegia basicamente a eficácia dos métodos de contracepção em detrimento da saúde da usuária. Ao desestimularem o uso de contraceptivos que interferem na relação sexual mas que, ao mesmo tempo, promovem a negociação sexual e a divisão da responsabilidade pelo evitar filhos entre os parceiros sexuais, como é o caso dos métodos de barreira, esses programas acabaram por introduzir uma cultura contraceptiva, que se mostra hoje extremamente perversa do ponto de vista das mudanças de comportamento sexual exigidas pela epidemia de AIDS. Sem dúvida, esses programas foram tão eficazes porque não só encontraram, como se ancoraram em uma cultura sexual machista, extremamente propícia ao uso de métodos de alta eficácia e sob o controle feminino, como é o caso do anticoncepcional oral e da esterilização. É verdade que o uso de tais métodos possibilitou que milhares de mulheres, ao diminuir o número de filhos, pudessem ingressar no mercado de trabalho, assim como permitiu o exercício da sexualidade sem o fantasma de uma gravidez indesejada. Entretanto, ao se ancorar nessa cultura sexual, reforçou, ou pelo menos deixou intocada, uma série de valores e comportamentos que interferem negativamente no processo de negociação de práticas sexuais mais seguras, como é o caso do uso do condom e do sexo não penetrativo. Com relação à esterilização, por exemplo, que, ao lado do anticoncepcional oral, é o método mais usado no Brasil, vários estudos têm mostrado que o uso de condom por mulheres laqueadas é muito mais difícil, mesmo quando um dos parceiros é portador do vírus (CDC 1992a, CDC 1992b). Em recente pesquisa, realizada em São Paulo, foi possível observar que não só o uso consistente, mas qualquer uso de condom só existe dentro de um contexto de contracepção. O uso de condom, nos 30 dias que antecederam a entrevista, entre as mulheres não esterilizadas, foi de 17,1% e, de 0%, entre as esterilizadas (Barbosa 1994). Por outro lado, no campo da vivência da sexualidade, algumas diferenças foram constatadas entre os dois grupos, que atestam essa relação entre cultura sexual e cultura contraceptiva anteriormente mencionada. Embora a penetracão vaginal seja igualmente (e muito) importante, em termos de frequência, para os dois grupos, as mulheres esterilizadas tendem a ter uma atitude sexual mais passiva - expressa na preferência pela iniciativa sexual exclusivamente masculina - como também seu repertório sexual é menos diversificado, levando a supor que talvez estas mulheres apresentem dificuldades específicas para a negociação sexual. A maior aderência a posturas de gênero mais tradicionais também encontrada entre essas mulheres constitui provavelmente mais um fator que dificultaria a negociação na esfera sexual. Além disso, a esterilização cirúrgica é muito frequente entre mulheres casadas e com níveis de escolaridade mais baixos, perfil que coincide com os grupos populacionais mais atingidos pela epidemia do HIV/AIDS. Isto se torna preocupante, pois ratifica a idéia de que as mulheres que se esterilizam - pela falta de uma política adequada de oferta de serviços na área da saúde reprodutiva e pela dificuldade em compartilhar com o parceiro a contracepção e a criação dos filhos - são as mesmas que se encontram em situação de maior vulnerabilidade ao HIV e, fundamentalmente, pelas mesmas razões. Assim como é fundamental que o planejamento familiar repense seus pressupostos e comece a estimular de fato o uso de métodos de barreira, e em especial o condom, é necessário repensar as pesquisas e as políticas de desenvolvimento das tecnologias contraceptivas, no sentido de promover métodos eficazes e que ao mesmo tempo previnam as DSTs/AIDS. Daqui para a frente, cada vez mais será difícil pensar em prevenção de gravidez totalmente desvinculada da prevenção das DSTs/AIDS, já que a proposta de utilização de dois métodos para garantir uma sexualidade mais segura não tem se mostrado viável (Barbosa 1994). Finalmente, a emergência da epidemia do HIV/AIDS remete para a necessidade de repensar os programas verticalizados, quer sejam relacionados ao planejamento familiar, à prevenção do câncer cérvico-uterino e das DSTs/AIDS ou, ainda, ao pré-natal. A realidade, por exemplo, que vincula o planejamento familiar à uma demanda feminina e os serviços de DSTs à uma demanda masculina, só será desfeita a partir de uma efetiva integração dessas atividades que, ao atender homens e mulheres, possa ter como concepção básica a preservação da saúde e dos direitos sexuais. Referências bibliográficas Amaral E. (1993) Estudo de prevalência das infecções por vírus HIV e Treponema Pallidum e sua associação com fatores sociodemográficos em parturientes de Campinas. Tese de mestrado apresentada ao Depto de Ginecologia, FCM-UNICAMP, Campinas. Andrade KG. (1994) Nas raízes do silêncio: um estudo sobre a representação cultural da sexualidade feminina e a prevenção do HIV/AIDS. 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Resumo Tomando como ponto de partida a especificidade do trabalho feminino, que decorre do papel ocupado pelas mulheres na reprodução, o texto tem como tema central a relação entre a queda da fecundidade e o aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho, fenômenos que vem ocorrendo com grande intensidade no país desde os anos setenta. Na primeira parte, são feitas algumas considerações sobre a articulação entre a atividade econômica das mulheres e a família, lembrando que as posições desiguais ocupadas por indivíduos de um e outro gênero têm consequências diferenciais em sua participação no mercado de trabalho. A disponibilidade das mulheres para o trabalho não depende apenas de sua qualificação e das oportunidades oferecidas pelo mercado - como ocorre com os homens - mas também de características pessoais e familiares, entre as quais a maternidade ocupa lugar de destaque, em virtude da constante necessidade de conciliar responsabilidades. Na segunda parte do texto, uma análise do comportamento do trabalho feminino nas últimas décadas, no país e nas regiões Nordeste e Sudeste, revela que, apesar das dificuldades encontradas, as mulheres têm ingressado e permanecido no mercado de trabalho. O aumento da atividade feminina tem ocorrido sobretudo na zona urbana e no segmento formalizado do mercado, em ocupações de nível médio, principalmente na administração pública, no comércio e em atividades administrativas. O aumento da atividade feminina - que passou de 18,2% em 1970 para 39,2% em 1990 - pode ser explicado por fatores econômicos, culturais e demográficos, como a expansão do emprego no setor terciário, as transformações nos valores relativos aos papéis das mulheres, a expansão da escolaridade feminina e a intensa queda da fecundidade, que reduziu o número de filhos por mulher, liberando-a para o trabalho. Incidindo sobretudo sobre os fatores pessoais e familiares que afetam o trabalho feminino, o texto dá especial destaque à maternidade. Mostra que a presença e a idade dos filhos são os fatores que mais interferem na participação feminina no mercado de trabalho, porque as mães ainda são as principais responsáveis pelos cuidados com as crianças pequenas. Em 1980, 39% das brasileiras sem filhos trabalhavam, mas esse número caía para menos de 30% entre as mães. Porém, quando os filhos crescem e as mães podem ser substituídas ou ajudadas pela escola, sua disponibilidade para o trabalho volta a aumentar. Cerca de 41% das mães de filhos maiores de 7 anos trabalhavam em 1980, superando a atividade das que não eram mães. Importantes alterações ocorridas no perfil da força de trabalho feminina brasileira. Nas últimas décadas, no entanto - como o ingresso das casadas e das mães nos anos setenta e das mulheres mais velhas e que ocupam na família a posição de esposa nos anos oitenta - indicam que, apesar das dificuldades, as responsabilidades familiares não têm sido um obstáculo ao trabalho feminino. Em 1990, 54,7% das mulheres de 30 a 39 anos e 37,6% das cônjuges trabalhavam no país, alterando a força de trabalho feminina, antes composta majoritariamente por mulheres mais jovens e solteiras. Os dados também indicam que o aumento da participação econômica das esposas e das mães parece ter sido provocado, além de fatores econômicos, por profundas transformações no papel das mulheres na sociedade, uma vez que foram as mais escolarizadas e das camadas médias as que passaram a trabalhar. A partir das informações apresentadas, o texto sugere que o crescimento do trabalho feminino poderia ser atribuído muito mais a um grande aumento do valor do trabalho remunerado da mulher, fruto de um intenso processo de modernização e de mudança cultural observados no Brasil a partir dos anos setenta, do que a uma eliminação da incompatibilidade entre as responsabilidades familiares e a atividade econômica feminina. Pois as dificuldades continuam a existir, principalmente para as que têm filhos pequenos. De um lado, alternativas de cuidados substitutivos, como as creches, ainda são escassas, de outro, pouca coisa mudou na vida cotidiana familiar e não houve diminuição dos deveres femininos na reprodução. Contudo, apesar dos custos físicos e emocionais, as mulheres não querem abrir mão do que consideram uma conquista. Ter uma atividade remunerada pode significar maior autonomia e poder de decisão, inclusive sobre sua vida reprodutiva, o que as leva a buscar formas alternativas de conciliar a maternidade e o trabalho - como o trabalho informal, em tempo parcial, domiciliar, ou em empresas que oferecem algum apoio a funcionárias que têm filhos pequenos, como berçários e horários flexíveis - ao invés de se retirar dela. Maternidade e trabalho feminino: Sinalizando tendências Cristina Bruschini A análise das formas de inserção das trabalhadoras no mercado de trabalho deve necessariamente levar em conta a especificidade do trabalho feminino, que decorre do papel ocupado pelas mulheres na reprodução. Neste texto, cujo tema central é a relação entre a queda da fecundidade e o aumento do trabalho feminino, ambos fenômenos que vêm ocorrendo com grande intensidade no país desde os anos setenta, são feitas inicialmente algumas considerações sobre a articulação entre a atividade econômica das mulheres e a família. A seguir, uma análise do comportamento do trabalho feminino nas últimas décadas incide principalmente sobre dados indicativos da situação familiar das trabalhadoras e permite sinalizar, para os próximos anos, novas tendências nesta relação entre trabalho da mulher e família. Trabalho feminino e família: uma articulação necessária As relações de gênero assimétricas e hierárquicas que predominam nas sociedades ocidentais como a brasileira se expressam em posições desiguais ocupadas pelos indivíduos de um e outro sexo, tanto na esfera da produção quanto no âmbito privado das relações familiares. Apesar de alguma transformações, pode-se afirmar que, ainda hoje, destinam-se às mulheres sobretudo as atividades reprodutivas e os cuidados com a casa e os membros da família, enquanto aos homens cabe o papel de provedor desse grupo. Esta definição social dos papéis masculinos e femininos no âmbito da família tem conseqüências diferenciais sobre um e outro sexo, em sua participação no mercado de trabalho. A participação dos homens em atividades economicamente produtivas, em determinada conjuntura econômica, decorre das oportunidades oferecidas pelo mercado de trabalho e das credenciais de escolaridade e qualificação das quais eles dispõem e com as quais se oferecem ao mercado. Fatores familiares e domésticos pouco interferem na determinação do trabalho masculino, da mesma forma que o trabalho produtivo é parte inerente e inquestionável da identidade masculina, construída em torno desse papel provedor do homem. Com as mulheres ocorre o contrário. A manutenção de um modelo de família segundo o qual cabem a elas as responsabilidades domésticas e socializadoras, bem como a persistência de uma identidade construída em torno do mundo doméstico, condicionam a participação da mulher no mercado de trabalho a outros fatores além daqueles que se referem à sua qualificação e à oferta de emprego, como no caso dos homens. A constante necessidade de articular papéis familiares e profissionais limita a disponibilidade das mulheres para o trabalho, que depende de uma complexa combinação de características pessoais e familiares. O estado conjugal e a presença de filhos, associados à idade e à escolaridade da trabalhadora, as características do grupo familiar, como o ciclo de vida e a estrutura familiar, são fatores que estão sempre presentes na decisão das mulheres de ingressar ou permanecer no mercado de trabalho, embora a necessidade econômica e a existência de emprego tenham papel fundamental. A atividade econômica exercida pelas mulheres não depende, portanto, apenas da demanda do mercado e das suas necessidades e qualificações para atendê-la, mas decorre também de uma articulação complexa, e em permanente transformação, dos fatores acima mencionados. No entanto, além destes determinantes ao seu trabalho - qualificação, oferta de emprego, necessidade econômica e inserção na família - as mulheres defrontam-se também com determinadas características presentes em mercados de trabalho diferenciados, que são ou não favoráveis à conciliação entre as responsabilidades familiares e profissionais. Atividades formalizadas, que requerem maior deslocamento de casa para o trabalho e contam com horários rigidamente demarcados, são de conciliação mais difícil, ao contrário das atividades informais, rurais ou domiciliares, que favorecem a atenção concomitante à casa e à família. Em contrapartida, no primeiro caso encontra-se, via de regra, o trabalho mais bem remunerado, que garante à trabalhadora benefícios previstos na legislação. Enquanto isso, nas atividades não formais, embora a conciliação de papéis seja mais fácil e prevaleça a autonomia no uso do tempo, os rendimentos são inferiores e a instabilidade é acompanhada pela inexistência de garantias trabalhistas. Estas condições diferenciadas por gênero são apropriadas pelo mercado de trabalho, favorecendo a ocorrência de mecanismos discriminadores em relação às mulheres, que se expressam tanto no acesso ao trabalho, quanto na permanência, na promoção e nos níveis de remuneração. Um leque mais estreito de oportunidades de trabalho, barreiras no acesso a cargos de comando e chefia, desigualdades salariais em relação aos colegas, são alguns dos obstáculos constantemente enfrentados pelas trabalhadoras. Contudo, apesar das dificuldades encontradas e das sucessivas crises econômicas que vêm assolando o país, as mulheres entram e permanecem cada vez mais no mercado de trabalho. E, embora cerca de metade das trabalhadoras ainda esteja engajada em atividades pouco rentáveis da chamada economia informal, o aumento da atividade feminina vem ocorrendo sobretudo no segmento formalizado do mercado, em ocupações de nível médio de qualificação, rendimentos relativamente mais compensadores e com benefícios trabalhistas ampliados pela Constituição de 1988. Segundo dados referentes aos anos oitenta, as mulheres, que ocupavam apenas 29,7% dos empregos formais em 1980, chegam a ocupar 33,9% dos 23,6 milhões de postos de trabalho registrados pela RAIS em 1988 graças, sobretudo, à expansão do emprego feminino na administração pública, no comércio e em atividades administrativas (Bruschini 1994a,1994b). O aumento da população economicamente ativa feminina nas últimas décadas De fato, o crescimento da participação feminina no mercado de trabalho brasileiro vem sendo cada vez mais intenso e diversificado desde os anos setenta e não mostra nenhuma tendência a retroceder, apesar das crises econômicas que assolaram o país a partir dos anos oitenta. Em 1990, o número de trabalhadoras brasileiras atinge a cifra de mais de 22,9 milhões, 18 dos quais concentrados na zona urbana. Embora este expressivo contingente de trabalhadoras não chegue a constituir 40% do conjunto da força de trabalho brasileira, as taxas femininas de atividade têm revelado constante ampliação. Se, em 1970, apenas 18,2% das brasileiras de mais de 10 anos de idade eram economicamente ativas (Bruschini 1989) vinte anos depois a taxa de atividade feminina atingia 39,2% no país. Só na década de oitenta o crescimento relativo da força de trabalho feminina foi da ordem de 54%. Ainda que a atividade das mulheres tenha crescido também no campo, onde sua taxa nacional de atividade alcança 36% em 1990, o incremento foi muito mais significativo na zona urbana, graças à incorporação de quase 7 milhões de novas trabalhadoras, representando um crescimento relativo da ordem de 59,7% na década de 80. Uma rápida comparação entre algumas regiões do país, por outro lado, revela o intenso crescimento relativo do volume de trabalhadoras urbanas no Nordeste - quase 70% - enquanto na região Sudeste o aumento percentual de trabalhadoras foi semelhante no campo e nas cidades (Tabela 1). Os estudos sobre o trabalho feminino têm demonstrado que este contingente de mulheres que tem ingressado no mercado de trabalho brasileiro é formado sobretudo por representantes das camadas médias e escolarizadas da população. Este novo padrão de comportamento feminino , que vem sendo forjado desde os anos 70, poderia ser explicado por uma combinação de fatores culturais, demográficos e econômicos. Do ponto de vista da demanda do mercado, a expansão da economia, a crescente urbanização e o ritmo acelerado da industrialização configuraram, nos anos setenta, um momento de grande crescimento econômico, favorável à incorporação de novos trabalhadores, inclusive os do sexo feminino. Já nos anos oitenta, marcados pela recessão e desemprego, a concentração das trabalhadoras em guetos ocupacionais que se expandiram apesar das crises econômicas, poderia explicar a persistência da atividade feminina. As análises mais recentes sobre o comportamento do mercado de trabalho brasileiro nesse período (Pacheco 1992, Lacerda e Cacciamali 1992, Oliveira Porcaro e Jorge, 1994) revelam a ocorrência de um intenso processo de terciarização da economia brasileira, que provocou a expansão de atividades econômicas nas quais as mulheres sempre encontraram maior espaço de inserção, de certa forma protegendo-as de serem expulsas devido à crise. Estariam nesse caso ocupações na prestação de serviços, no comércio, atividades administrativas e sociais e, principalmente, o emprego público que teve um significativo crescimento entre as mulheres, principalmente no Nordeste (Spindel 1987, Bruschini 1994a,1994b). Do ponto de vista da oferta de trabalhadoras, profundas transformações nos padrões de comportamento e nos valores relativos ao papel social da mulher, intensificadas pelo impacto dos movimentos feministas desde os anos setenta e pela presença feminina cada vez mais atuante nos espaços públicos, constituem mecanismos facilitadores, alterando a constituição da identidade feminina, cada vez mais voltada para o trabalho produtivo. A expansão da escolaridade e o acesso das mulheres às universidades são aspectos fundamentais deste amplo processo de transformação. Mas a rapidez e a intensidade da queda da fecundidade, uma das mais profundas transformações demográficas ocorridas no país a partir dos anos 70, também desempenhou papel fundamental na ampliação da atividade feminina, ao reduzir o número de filhos por mulher, liberando-a para o trabalho. A queda da fecundidade e o trabalho feminino Após longa trajetória de estabilidade em níveis relativamente altos, tem início no Brasil, na década de 70, um consistente declínio das taxas de fecundidade, em todas as regiões do país e inclusive em suas áreas rurais. Em 1984, as taxas nacionais eram de 3,53 filhos, com grandes variações regionais (2,96 filhos no Sudeste, 4,96 no Nordeste) e segundo o domicílio, rural (5,32 filhos) ou urbano (3,03). Apesar das diferenças, a tendência ao declínio foi geral e constante, de tal forma que, enquanto nos anos setenta ela ocorria sobretudo nas regiões mais desenvolvidas e nas camadas sociais médias e ricas, nos primeiros anos da década de 80 passa a atingir os grupos mais pobres e as regiões menos desenvolvidas do país, como o Nordeste, onde a queda da fecundidade foi intensa e em curto espaço de tempo (FIBGE 1988). Fatores econômicos, sociais e culturais - entre os quais se poderia situar a maior escolaridade das mulheres e seu acesso ao trabalho remunerado - poderiam em parte explicar essa intensa transformação na dinâmica demográfica. Mas a queda da fecundidade teria sido provocada também, e mais diretamente, por variáveis inibidoras, entre as quais os estudiosos do tema mencionam o conhecimento e o uso de anticoncepcionais, a incidência do aborto e a atuação de entidades dedicadas ao controle explícito da natalidade, principalmente nas regiões menos desenvolvidas do país, cujo exemplo mais contundente é o da esterilização de mulheres no Nordeste (FIBGE 1988). A relação entre a fecundidade e o trabalho feminino não ocorre em uma só direção. De um lado, é bastante conhecida a associação entre posição sócio-econômica e níveis de fecundidade. Os grupos sociais mais pobres e menos instruídos apresentam taxas de fecundidade mais elevadas, enquanto o inverso ocorre entre os segmentos mais escolarizados e de renda mais elevada. Segundo dados da PNAD, as brasileiras mais pobres, em 1984, tinham em média 5 a 6 filhos, enquanto as mais ricas não ultrapassavam 2 ou 3. Da mesma forma, enquanto as mulheres não instruídas ou com baixo nível de escolaridade tinham de 4 a 5,5 filhos, as mais instruídas passavam a ter de 2 a 3 (Tabela 1, p. 59, FIBGE 1988). Por outro lado, são as mulheres mais escolarizadas aquelas cuja presença é mais acentuada no mercado de trabalho, porque podem ter atividades mais gratificantes e bem remuneradas, que compensam os gastos com a infra-estrutura doméstica necessária para suprir sua saída do lar. A associação entre a escolaridade e a participação das mulheres no mercado de trabalho, que já fora constatada para os anos setenta (Miranda 1975, Rosemberg 1982) intensifica-se de tal modo na década seguinte que, em 1990, cerca de 64% das mulheres com 9 anos ou mais de estudo trabalhavam fora enquanto, no mesmo ano, a taxa de atividade das que não tinham instrução era de 28% e a atividade feminina global não ultrapassava 39,2% (Bruschini 1994a,1994b). A associação entre a escolaridade e o trabalho feminino é tão intensa que quase elimina possíveis obstáculos à atividade econômica da mulher fora do lar, decorrentes de seu estado conjugal: em 1980, entre aquelas que tinham de 1 a 4 anos de instrução, 28% das solteiras e 17% das casadas trabalhavam. Essa diferença, no entanto, diminuía sensivelmente entre as mais instruídas: no grupo das mulheres com mais de doze anos de estudo, as taxas de atividade, além de muito mais elevadas, eram semelhantes entre as casadas e as solteiras, respectivamente 69% e 74,4% (Bruschini 1989). Uma intensa combinação de fatores estaria, portanto, levando mulheres mais instruídas, de nível sócio-econômico mais elevado e economicamente ativas, a ter um número menor de filhos. Por outro lado, a presença e o número de filhos, assim como sua idade, também têm efeitos significativos na disponibilidade das mulheres para a atividade econômica. Apesar das dificuldades, no entanto, elas estão ingressando cada vez mais no mercado de trabalho e permanecendo nele, mesmo quando são mães. O que estaria mudando? Possíveis indagações sobre a relação entre maternidade e trabalho feminino nas últimas décadas e tendências futuras A ausência de dados atualizados sobre a atividade econômica da mulher associada à sua fecundidade inviabiliza uma análise mais precisa sobre o tema, exigindo que se trabalhe apenas com hipóteses, baseadas em estatísticas referentes aos anos oitenta e, até mesmo, em alguns casos, aos anos 70. Análises realizadas com base em dados das PNADs de 81 e 90 revelam a ocorrência de importantes alterações no perfil da força de trabalho feminina nos anos oitenta, as quais poderão oferecer alguns elementos para levantar hipóteses sobre a relação entre fecundidade e trabalho feminino. De modo geral, é possível afirmar que cada vez mais entram no mercado de trabalho brasileiro mulheres mais maduras quanto à idade, escolarizadas, e que ocupam em suas famílias o papel de esposa, embora não se possa também afirmar que sejam mães, uma vez que esta informação não se encontra disponível para anos mais recentes. Os dados apresentados nas tabelas a seguir colocam em evidência algumas das mais importantes mudanças nas características pessoais e familiares das trabalhadoras, que estariam ocorrendo nas duas últimas décadas e que poderiam indicar que uma nova relação estaria se estabelecendo entre as mulheres, o trabalho e a família. No que diz respeito à idade, é possível constatar que a participação econômica das trabalhadoras, ao contrário do que ocorre com a de seus colegas, apresenta maior intensidade na faixa dos 20 aos 24 anos, após a qual haveria um certo refluxo, coincidindo com a assunção de responsabilidades familiares (Tabela 2). No entanto, na década de 80, esta tendência se altera, pois a atividade feminina continua a ser elevada nas faixas etárias subseqüentes, atingindo o pico dos 30 aos 39 anos, quando mais da metade das brasileiras trabalha, o que constitui uma mudança bastante significativa no perfil da força de trabalho feminina. Wajnman e Rios-Neto (1994), em análise realizada com tabulações especiais das PNADs dos anos 80, comentam que esta rápida e impressionante mudança no perfil etário da PEA feminina teria ocorrido nos cinco últimos anos da década, aproximando o Brasil de padrões de participação feminina semelhantes aos de países desenvolvidos e altamente industrializados. As diferenças regionais, contudo, são marcantes. Enquanto o Nordeste segue o padrão brasileiro de participação feminina segundo a idade, no Sudeste, região mais desenvolvida do país, o pico da atividade feminina continua a ser a faixa dos 20 aos 24 anos, com declínio relativo na faixa posterior. Uma possível explicação para esse diferencial etário entre as trabalhadoras de uma e outra região poderia ser buscado nas estruturas regionais dos mercados de trabalho, mais ou menos favoráveis à incorporação de trabalhadoras com responsabilidades familiares. Ao contrário do que acontece com os trabalhadores, a absorção das mulheres em diferentes setores de atividade econômica é afetada por seu estado conjugal. Enquanto a indústria emprega, preferencialmente, jovens e solteiras, outros setores como serviços, atividade sociais e administração pública tendem a favorecer o emprego de casadas e mais velhas (Bruschini 1989). É possível que o peso diferencial de cada um desses setores nas regiões examinadas seja responsável pela maior absorção de jovens no Sudeste e mais velhas no Nordeste. A tendência de ampliação da atividade das mulheres mais maduras na década de 80 encontra eco no considerável aumento do ingresso das cônjuges no mercado de trabalho: enquanto 20% delas eram ativas em 1980, 37,6% passaram a sê-lo em 1990 (Tabela 3) sugerindo que atualmente são as casadas e mais velhas as mulheres que se dispõem a enfrentar dificuldades próprias à conciliação entre responsabilidades profissionais e familiares para se dedicar a uma atividade econômica de mercado. Segundo Sedlacek e Santos (1991) que analisaram tabulações especiais das PNADs, houve, no período 83 a 88, um acréscimo de cerca de 1,9 milhões de cônjuges na força de trabalho brasileira. Este aumento, da ordem de 5,3%, representou, segundo eles, uma das mais importantes mudanças estruturais no mercado de trabalho nacional. Embora muitos trabalhos sobre o tema (ver, por exemplo, Oliveira 1990 e Jatobá 1990) enfatizem o aumento da pobreza e da necessidade de complementação da renda familiar para explicar a ampliação da atividade econômica das esposas, é forçoso reconhecer que ela é provocada, também, por profundas transformações nos valores em relação ao papel das mulheres na sociedade, ao lado de maior acesso à escolaridade, menor número de filhos, mudanças nas relações familiares e diversificação das pautas familiares de consumo. Por outro lado, o inegável empobrecimento da classe média brasileira, nos anos oitenta, e a necessidade de arcar com custos mais elevados com a educação dos filhos e com a saúde dos familiares, devido à precariedade dos sistemas públicos de atendimento, também impulsionaram as esposas destas camadas sociais para o mercado de trabalho. De fato, dados publicados pelo IBGE revelam que a ampliação da atividade econômica das cônjuges é mais intensa nos níveis mais altos de renda, sobretudo na zona urbana. Nas cidades, 50% das cônjuges em famílias com rendimento per capita superior a 3 salários mínimos trabalham, em comparação a 23,3% daquelas que fazem parte de famílias cujos rendimentos são inferiores a _ de salário (Tabela 4). No que diz respeito ao estado civil das trabalhadoras - informação disponível apenas até o Censo de 80 - os dados mostram que, apesar de estarem em minoria na força de trabalho, as casadas praticamente dobraram sua presença no mercado na década de 70, tanto no país como nas regiões analisadas (Tabela 5). Sedlacek e Santos (1991) revelam também que, no período 83 a 88, o grupo das casadas - que, por aproximação, seriam as esposas concentradas na faixa dos 25-49 anos - apresenta taxa mais alta de aumento no mercado de trabalho do que o das filhas - que seriam as solteiras de menos de 25 anos. Segundo os autores, portanto, o padrão constatado de aumento na participação feminina na faixa dos 25-49 anos estaria associado a uma tendência de elevação da participação das casadas na PEA. A presença de filhos, porém, é o fator que mais interfere na participação feminina no mercado de trabalho. A responsabilidade pela guarda, cuidado e educação dos filhos na família e a insuficiência de equipamentos coletivos como as creches limitam a saída da mulher para o trabalho remunerado, sobretudo se os rendimentos obtidos são insuficientes para cobrir custos com formas remuneradas de cuidado infantil. Contudo, quando a necessidade econômica é tão premente que inviabiliza o exercício da maternidade em tempo integral, como nas famílias muito pobres ou nas chefiadas por mulheres, outros arranjos como a rede de parentesco ou de vizinhança poderão ser acionados para olhar as crianças enquanto a mãe vai trabalhar. A atividade econômica feminina costuma, por isso, declinar entre as mães: em 1990, enquanto quase 39% das brasileiras sem filhos trabalhavam fora, esse número caía para menos de 30% quando elas se tornavam mães (Tabela 6). Mas a presença de filhos tem efeitos distintos sobre o trabalho feminino na cidade ou no campo, assim como em regiões em níveis desiguais de desenvolvimento. Na zona urbana, a presença de um filho é um elemento muito mais constrangedor pelo tipo de atividade aí predominante, pouco favorável à conciliação de papéis. Na zona urbana brasileira, a taxa de atividade feminina, em 1980, cai de 46% quando a mulher não tem filhos, para cerca de 34% quando ela tem um filho. Na zona rural, embora as taxas de atividade sejam muito inferiores, o efeito provocado pela presença de filhos não constitui uma limitação ao trabalho da mulher, que mantém taxas muito parecidas tenha ou não filhos (Tabela 7). Efeitos semelhantes da maternidade sobre a atividade feminina podem ser constatados na comparação entre o Nordeste e São Paulo, onde o peso da economia urbano-industrial é muito mais acentuado: em 1980, enquanto a atividade das que não tinham filhos era muito mais elevada em São Paulo (49%) do que no Nordeste (quase 30%) essa diferença diminuía consideravelmente entre as mães (33% em São Paulo e 27% no Nordeste) indicando que no estado mais desenvolvido havia tanto maiores oportunidades de emprego quanto uma economia mais formalizada (Tabelas 6 e 7). A idade dos filhos também atua intensamente na determinação do trabalho feminino. Quando eles são pequenos, as mães são as principais responsáveis por eles. Segundo Campos, Rosemberg e Ferreira (1992) em 1985, 78,4% das crianças de 0 a 6 anos das regiões metropolitanas ficavam com suas mães a maior parte do tempo e apenas 23,2% estavam freqüentando creches ou pré-escolas. Mas quando os filhos crescem e as mães podem ser substituídas ou pelo menos ajudadas pela escola, sua disponibilidade para o trabalho volta a aumentar. Cerca de 41% das mães de filhos maiores de 7 anos trabalhavam em 1980, superando a taxa de atividade das que não eram mães (Tabela 6). O efeito da presença de filhos também varia em função dos níveis de rendimento do grupo familiar. Para as mulheres de renda mais baixa, a atividade mantém aproximadamente os mesmos níveis, caso sejam ou não mães e aumenta quando elas têm mais de um filho, revelando que a premência econômica supera os empecilhos decorrentes da maternidade. Nas faixas de renda mais elevada, as taxas de atividade são muito superiores quando a mulher não tem filhos, caem abruptamente quando ela se torna mãe e diminuem mais ainda quando tem mais de um filho. As baixas taxas de atividade entre as mais pobres, contudo, não significam que trabalhem menos. Provavelmente exercem atividades mais informais, que permanecem invisíveis nas estatísticas oficiais (Tabela 8). Contudo, apesar das dificuldades, nos anos 70, em todas as situações examinadas, as mães de filhos de qualquer idade aumentam sua participação no mercado de trabalho. Esta ampliação é ainda mais intensa entre as de nível sócio-econômico mais elevado, fazendo supor que a pobreza não seria a única explicação para o aumento da atividade econômica das mães. Ao contrário, também aqui haveria indícios de que estariam ocorrendo transformações nas atitudes e nos valores das mulheres em relação ao trabalho remunerado (Tabelas 6, 7 e 8). Tudo leva a crer que esta tendência tenha se mantido e até mesmo se acentuado nos anos oitenta, mas não se dispõe de dados censitários mais recentes que permitam comprovar esta suposição. Na cidade de São Paulo, dados da pesquisa DIEESE/SEADE revelam que, em 1989, 48,6% das paulistas sem filhos trabalhavam, enquanto 41,9% das mães se encontravam na mesma situação, mostrando que também no mercado de trabalho paulistano a presença de filhos é uma limitação, embora esteja longe de ser um obstáculo. No entanto, a associação entre a condição de maternidade e a idade da mãe evidencia etapas do ciclo vital feminino nas quais a disponibilidade para o trabalho é efetivamente menor: as taxas de atividade das mulheres que não têm filhos são muito mais elevadas dos 18 aos 39 anos, enquanto as mães trabalham menos que as outras mulheres sobretudo dos 18 aos 24 anos, faixa etária na qual os filhos ainda são pequenos e necessitam mais de seus cuidados (Tabela 9). Wajnman e Rios-Neto (1994) acreditam que o aumento da atividade econômica das mães poderia ser atribuído ao fato de que a criação dos filhos estaria perdendo o impacto sobre a saída da mulher da força de trabalho, ou seja, a presença de filhos não mais constituiria um empecilho ao trabalho feminino. A previsão dos autores é a de que a fertilidade não deverá mais afetar, no futuro, as taxas de atividade feminina, uma vez que os valores associados a um número elevado de filhos declinaram, enquanto aqueles que se referem à participação das mulheres no mercado de trabalho tornaram-se mais fortes. A concentração da fertilidade e dos cuidados com os filhos no grupo etário dos 20 aos 29 anos, no entanto, justificaria a ocorrência de um aumento relativamente pequeno da atividade neste grupo etário. Os autores acreditam que o crescimento do trabalho da mulher casada poderia também ser atribuído muito mais a um grande aumento no valor do trabalho remunerado entre as mulheres, fruto de um intenso processo de modernização e de mudança cultural observados no Brasil a partir dos anos setenta, do que a uma eliminação da incompatibilidade entre as responsabilidades familiares e a atividade econômica feminina. Segundo eles, no entanto, ao longo do tempo essa incompatibilidade também deverá declinar, embora mantendo um pico dos 20 aos 24 anos. Por enquanto, ao que parece, as mães ingressam cada vez mais no mercado de trabalho e não saem dele por causa dos filhos, mas não se pode afirmar que a difícil articulação entre a maternidade e o trabalho feminino tenha deixado de existir. Ao contrário, dados de 1986 indicam que a relação entre a atividade feminina e a presença de filhos ainda persiste, assim como maiores dificuldades de conciliação para as mães em mercados de trabalho mais formalizados: o percentual de mulheres que tiveram filhos é mais elevado entre as que não trabalham, sobretudo no Sudeste, região na qual se encontra o mais baixo índice de mães ativas (Tabela 10). Confirmando as hipóteses de Wajnman e Rios-Neto, a incompatibilidade entre o trabalho feminino e a maternidade é mais intensa principalmente entre as que têm menos de 30 anos. Entre as brasileiras que tinham 20 a 24 anos, 45,3% tinham tido filhos em 1986. Esse percentual, contudo, caía para 29,4% entre as economicamente ativas, mas chegava a 61,5% entre as que não trabalhavam, expressando uma relação negativa entre a maternidade e a atividade econômica que se repete na faixa etária subsequente (Tabela 11). Segundo dados do SEADE, também no Estado de São Paulo as mulheres não integradas à população economicamente ativa tinham, em 1986, fecundidade mais alta - 3,06 filhos - do que as que realizavam algum trabalho fora de casa - 2,33 filhos. Contudo, ao longo do período analisado, 1980 a 1986, as taxas das ativas sofreram um declínio menos acentuado, diminuindo as diferenças entre elas e as inativas, e indicando a adoção de padrões semelhantes de controle da fecundidade por todas as mulheres, independente de sua condição de atividade (Fundação SEADE 1994). Outros estudos (Ardaillon 1989, Massi 1992, Di Ciommo 1990) por outro lado, comprovam, com base em farto material de pesquisa empírica, que são inúmeras as dificuldades das mulheres que trabalham para conciliar a atividade profissional com a maternidade, sobretudo se os filhos são pequenos. Alternativas de cuidados substitutivos, como creches, empregadas domésticas, redes de parentesco etc..., razões de ordem mais psicológica ou emocional, como a culpabilização por deixar os filhos, são apenas algumas das dificuldades mencionadas por inúmeras mães entrevistadas nessas pesquisas. Contudo, as mulheres trabalham apesar dos obstáculos, preferindo buscar formas alternativas de conciliar a maternidade com a atividade econômica, ao invés de se retirar dela. O trabalho em tempo parcial (Di Ciommo 1990) a atividade domiciliar (Bruschini 1993) empregos assalariados em setores ou empresas que oferecem algum apoio às funcionárias que têm filhos pequenos, como creches e horários mais flexíveis (Bruschini 1994) são apenas algumas das inúmeras estratégias adotadas por mães que trabalham. Por outro lado, as pesquisas mostram também que estas transformações nas vidas das mulheres não estariam sendo acompanhadas por mudanças na distribuição de papéis na família. Ao contrário, o aumento das responsabilidades femininas na produção não tem sido seguido por uma diminuição de deveres na reprodução. As mulheres trabalham cada vez mais, mas na vida cotidiana pouca coisa mudou. Na família, não houve redistribuição de papéis e os pais ainda estão pouco presentes na atenção dada aos filhos (Di Ciommo 1990). Na casa, as tarefas domésticas e os cuidados com as crianças ainda são realizados pelas mulheres. Por outro lado, ainda é muito pequena a contribuição da sociedade na garantia de equipamentos coletivos que facilitem e aliviem a sobrecarga das mulheres. No entanto, apesar dos custos físicos e emocionais desta difícil conciliação, as mulheres não estão dispostas a abrir mão de suas conquistas. Pesquisas e outros projetos realizados com trabalhadoras de qualquer camada social sugerem que os ganhos em termos de autonomia e de poder de decisão advindos do trabalho remunerado justificam os incontáveis obstáculos a serem superados. Ter voz ativa em casa, dispor de algum dinheiro para circular no espaço urbano, são pequenas conquistas das quais até mesmo trabalhadoras pobres do informal nordestino não querem abrir mão (Sarti 1990). Ter alguma renda, mesmo pequena, pode significar a possibilidade, inclusive, de negociar a tomada de decisões sobre a própria maternidade. Segundo Goldani (1994) resultados empíricos sobre a relação entre atividade feminina e níveis de fecundidade têm reforçado a hipótese de que, quanto maior o poder econômico da mulher, maior seu poder de negociação nas relações entre o casal e de controle sobre os eventos em sua trajetória familiar, ao contrário de mulheres dedicadas exclusivamente a tarefas domésticas, que teriam pouco ou nenhum poder decisório. Em suma, a análise da relação entre a maternidade e o trabalho feminino sugere que as mulheres continuarão a ingressar no mercado de trabalho, quaisquer que sejam as dificuldades advindas de sua condição familiar. No entanto, a explicação para esta persistência deveria ser buscada muito mais na valorização do trabalho feminino e nos novos papéis desempenhados pelas mulheres na sociedade, do que na implantação de condições concretas que eliminem a relativa incompatibilidade que existe entre a maternidade e o trabalho feminino. Pois estas condições pouco se alteraram, seja no interior da família, na qual os papéis seguem sendo desigualmente distribuídos, seja na sociedade, cujos equipamentos sociais públicos e privados continuam muito aquém das necessidades das mulheres. É por isso que qualquer política social que tenha por finalidade beneficiar as trabalhadoras deveria buscar não só a igualdade no mercado de trabalho e a proteção para as trabalhadoras que são mães, mas também criar mecanismos que viabilizem uma nova divisão de papéis na família, com todos os seus integrantes partilhando tanto as responsabilidades profissionais quanto as domésticas. por situação de domicílio
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